descartar o que não gera mais apego
No manual de Marie Kondo, a japonesa de 30 anos
que se tornou "guru" mundial da organização, a regra
é clara: nunca, jamais, enrole suas meias como bolas
na hora de guardá-las.
"As meias na gaveta estão de férias. Levam uma surra
no trabalho do dia a dia, aguentando a pressão e a
fricção para proteger seus preciosos pés. O tempo que
passam no armário é a única chance que elas têm de
descansar"
, afirma Kondo no best-seller "A Mágica da Arrumação" (ed.
Sextante, R$ 24,90), lançado neste mês no Brasil.
O método de Kondo, cuja publicação já vendeu dois milhões de cópias ao
redor do mundo, vai, é claro, muito além das meias. Mas baseia-se no mesmo
princípio: criar uma conexão emocional com seus pertences, mantendo
apenas aquilo que "traz alegria" e descartando, educadamente, o resto.
"Poucas pessoas pensam se um par de meias pode lhes dar alegria ou se as
meias podem ficar confortáveis quando estão guardadas. Mas eu acho que é
importante pensar sobre as pequenas coisas", diz Kondo à Folha.
"Se você faz isso, percebe que até mesmo um par de meias está o ajudando em
sua vida –e começa a dar valor para tudo."
BELEZA ORGANIZADA
Ela recebeu a reportagem em um quarto de hotel em Nova York. De roupa e
cabelo impecáveis e voz baixa, é –não por acaso– o retrato perfeito do que
quer vender: a ideia de beleza organizada.
O interesse pela arrumação surgiu ainda criança, quando lia "todas as revistas
sobre assuntos domésticos" compradas pela mãe. Aos 15, começou a
desenvolver a técnica que a alçou ao status de celebridade, a KonMari.
"Comecei a praticar todos os dias, no meu quarto, no dos meus irmãos, meus
amigos. Essa era a minha vida", diz Kondo.
No mês passado, ela foi eleita pela revista norte-americana "Time" uma das
cem pessoas mais influentes do mundo. Responsável por escrever um texto
sobre Kondo para a publicação, a atriz Jamie Lee Curtis decretou: "Se um dia
fizer uma tatuagem, ela dirá 'Spark Joy!' [Traga Alegria]"
'KONDAR'
Como um culto, "A Mágica da Arrumação" atrai seguidores ao redor do
mundo. Nas redes sociais, há grupos para compartilhar as vitórias do dia a dia
da organização e trocar ideias sobre como aperfeiçoar as técnicas.
"Kondo" virou até verbo, utilizado ao empregar a técnica da japonesa
–"Kondei minha estante de livros hoje", escreve uma blogueira.
Marie Kondo atribui seu sucesso à efetividade do método que criou. "Ele realmente funciona. Então quem o pratica, acaba falando para os amigos, espalhando a ideia", diz. "Além disso, a técnica não é só sobre arrumação, mas sobre como melhorar o seu estado mental."
No livro, ela cita casos de clientes que largaram o emprego ou um casamento ruim depois de aplicarem o método KonMari em suas vidas.
"Quando você põe a casa em ordem, também organiza suas questões e seu passado. A consequência é que você passa a distinguir com mais clareza o que é essencial e o que é inútil, assim como o que deve e o que não deve fazer."
Mesmo com toda confiança em sua técnica, a autora admite que se surpreendeu com o sucesso de seu livro fora do Japão, onde foi lançado em 2011. "O conceito de trazer alegria e a ideia de ver um objeto como um ser humano são bastante específicos da cultura japonesa."
Com a fama, Kondo parou de aceitar novos clientes para consultorias pessoais –a lista de espera para uma delas chegava a três meses. Mas nem tudo está perdido para os novos fãs: agora, ela treina outras pessoas no KonMari para ampliar o número de aulas dadas com base no método.
"Esse é o meu objetivo, que todos no mundo tenham um estilo de vida que lhes traga alegria", afirma.
Mas, se conseguir, de fato, dominar o mundo com sua beleza organizada, o que vem depois?
Para essa pergunta, Marie Kondo não tem a resposta na ponta da língua: "Nunca me perguntaram isso", sorri. "Eu não faço ideia."

Nenhum comentário:
Postar um comentário